Para saber quem somos, de onde viemos, não
poderíamos deixar de contar um pouco a história de nossos
"antepassados".
Iniciando pelo nosso querido Padrinho de Umbanda Caboclo Irajé e sua médium
Madrinha Elvira.Umbanda 100 Anos - Nós Fazemos parte dessa História.
Aberta há 44 anos, a Tupã Oca do Caboclo
Irajé escreveu sua história na Umbanda.
A Tupã Oca do Caboclo Irajé foi aberta em 23 de Abril de 1964, sendo Dona
Elvira Moura Lourenço, sua fundadora, médium que incorporava o Caboclo Irajé.
Porém, a vida espiritual de dona Elvira teve início bem antes, ao entrar em
um terreiro que, por falta de preceitos e fundamentos, acabou por adquirir problemas espirituais que levaram ao seu afastamento.
Através de uma amiga, conheceu então o Primado de Umbanda do Estado de São
Paulo, casa do Caboclo Arranca Toco, comandada pelo médium, Sr. Félix
Nascentes Pinto. Foi recebida e submetida a um tratamento espiritual.
Posteriormente, já fortalecida, passou a fazer parte das correntes mediúnicas
da casa e iniciou seu desenvolvimento, sendo preparada pelas mãos de Sr.
Félix e Sra. Iracema Bastos Pinto, sua esposa.
A primeira entidade a incorporar na matéria de dona Elvira foi Pai Damião,
vindo na Linha de Iofá, os Pretos-Velhos, em seguida, se manifestou a Baiana
Maria Pilintra, porém, naquela época, a linha Baiana não vinha trabalhar no
Primado de Umbanda.
Sr. Félix percebeu então que dona Elvira tinha uma missão maior que ser
médium e trabalhar dentro da casa de seu Pai Arranca Toco, mas ter seu
próprio terreiro. Deu a ela todos os ensinamentos necessários e toda
documentação, uma vez que, financeiramente, dona Elvira não teria como pagar
por isso e assim, a Tupã Óca do Caboclo Irajé passou a existir, sendo a 5ª.
Filial do Primado de Umbanda do Estado de São Paulo.
Início da Missão do Caboclo Irajé
Inicialmente dona Elvira atendia na sala de sua casa, com o auxílio de
sua irmã Ninica.
A primeira sede foi aberta numa pequena sala na Rua Zodíaco, Vila Carrão, em
três meses de atendimento, já possuía cinqüenta médiuns fazendo parte das correntes
espirituais da casa. Foi necessário mudar, então para um salão maior, locado
na Rua Planeta, Vila Formosa. Os atendimentos ao público passaram a ser
realizados duas vezes por semana, as terças e sábados e às quartas-feiras eram
realizadas sessões de desenvolvimento para o perfeiçoamento e doutrina dos
médiuns.
Na mesma época, Sr. Félix descobriu em dona Elvira um dom especial, o da
vidência e passou a ela alguns ensinamentos para que pudesse ajudar às
pessoas também desta forma. Ela começou a ler nas águas os problemas e as
soluções para as pessoas que a procuravam, ficando muito conhecida por esse
dom. Atendia todas as segundas e quartas-feiras, incansavelmente, cerca de 60
pessoas por dia, das 7hs às 21hs.
médiuns participando da casa, bem como de pessoas em busca de ajuda, a Tupã
Oca do Caboclo Irajé mudou-se para sede própria, na Rua Mororó, Tatuapé, onde
se encontra até os dias atuais. Com muita luta, ajuda de seus médiuns e a doação de pessoas que conseguiam através dela resolver seus problemas, conseguiu então construir sua casa.
OS FILHOS DE PAI IRAJÉ
Durante sua caminhada, em tantos anos de caridade, dona Elvira contou
com a ajuda de pessoas muito especiais que tiveram grande participação na
construção de tudo que temos hoje.
Uma dessas pessoas foi, sem dúvida, Senhora Eulina Ferreira Lourenço, filha
espiritual do Caboclo Irajé, médium do Caboclo Gira Mundo e sua nora. Sendo o
braço direito de dona Elvira, esteve sempre presente, cuidando de assuntos
materiais e espirituais, mantendo as tradições, hierarquia e preceitos.
Foi assim, um dos alicerces para a construção do que hoje é o terreiro do
caboclo Irajé, de acordo com o que prega a nossa Umbanda: humildade,
simplicidade, respeito e caridade desinteressada. Em 29 de Julho de 2002, a
Senhora Eulina Ferreira Lourenço também fez sua passagem, deixando uma grande
saudade e a certeza na Justiça de Xangô.
Mas não sejamos injustos, pois todos os médiuns e Caboclos que um dia
pertenceram a essa corrente, participaram, de alguma forma, deste crescimento
e trouxeram sua parcela de luz e axé.
Dona Elvira preparou e coroou, como chamamos a “feitura de santo”, mais de
cem médiuns, entre os quais, alguns se destacaram.
Um dos filhos mais ilustres e queridos por dona Elvira foi Orestes Dolcinotti
Filho, médium do Caboclo Lírio Branco.
Durante o tempo em que pertenceu ao terreiro, realizava casamentos,
batizados, cantava as curimbas e ajudava em tudo que era necessário.
Como um bom filho de Caô, sua contribuição foi a sabedoria e muita luz.
Dona Elvira tinha por ele um imenso carinho, considerando-o como verdadeiro
filho de sangue.
Antes de sua passagem em 2006, mesmo pertencendo a outro terreiro, Orestes
voltou à casa de seu Pai Irajé e novamente trouxe sabedoria para nós, os
novos médiuns de Umbanda, em suas palestras e ensinamentos, despertando em
quem pouco conhecia a respeito de sua história, um grande
carinho, respeito e admiração. Além de tudo, projetou reformas para melhorar
nosso espaço físico, as quais, graças a ele, estamos realizando.
Queremos deixar aqui nossa homenagem, com muita saudades e gratidão.
Tupã Oca do Caboclo Irajé e Pai
Folha Seca
Informativo Tupã Óca do Caboclo Irajé
Dezembro / 2008
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Caboclo Arranca Toco
Todo inicio de trabalhos, saudamos o Caboclo
Arranca Toco. Ele é nosso Bisavô de Umbanda, "Pai do Caboclo Irajé"
de nossa Madrinha Elvira.
Segue uma breve biografia do aparelho (médium) do Caboclo Arranca Toco, Sr.
Felix.
***
Felix Nascentes Pinto nasceu em 1° de Abril de
1900, em Macaé, no Estado do Rio de Janeiro. Em 1911, mudou-se para o então
Distrito Federal, Aos 25 anos, sentiu sua primeira manifestação mediúnica,
procurou então o Sr. Benjamim Figueiredo, que possuía um Tenda de Umbanda na
Rua São Paulo, começou ali , na Tenda Espírita Mirim, seu desenvolvimento
como médium e Umbandista.
Assim amparado, e com muita vontade de trabalhar
e pesquisar, começou seu estágio. Em virtude da grande perseguição que
naquela época sofria a Umbanda no Distrito Federal, achou Benjamim que o
noviço Felix deveria ir para a Bahia. Foi então para Salvador, ficando com
José da Silva Costa, da “ Nação Angola “, e que era também conhecido como
José do Mocotó, em virtude de morar na Rua do Mocotó, no Bairro de Praia
Grande. Felix confessa “ Onde José da Silva Costa põe o pé, eu não coloco a
mão. Gostaria de ser um José do Mocotó. A ele rendo minhas homenagens e
respeito. “Durante quase um ano. Félix ficou ali, até sua “ feitura de cabeça
“.
Após a revolução de 1930, transferiu-se para São
Paulo, aí encontrando também bastante dificuldade e acirradas perseguições
aos Umbandistas, mas a sua fé era inabalável, e continuou seu trabalho graças
à proteção dos Guias. Félix queria saber mais sobre Umbanda e, voltando para
o Rio de Janeiro, cursou com aproveitamento a Escola de Formação de Chefe de
Terreiro (C.C. T), na Tenda Espírita Mirim, no período de 1937 a 1940.
Voltando para São Paulo, encontrou no bairro de
Vila Anastácio, um casal que muito as escondidas praticava a Umbanda, e aí
Félix juntou-se a eles, continuando a praticar o culto. Passaram-se os anos,
Felix percebeu que já estava na hora do culto Umbandista impor-se. Em 1950,
fundou sua própria Tenda, a Tupã Oca do Caboclo Arranca Toco, só quando
recebeu “ alforria ‘’ - o “ axé do Santo “ , a ordem para montá-la, a qual
até hoje funciona, dentro dos princípios e ensinamentos deixados por ele.
Em 1952, apesar das perseguições e outras
perturbações, resolveu levar a Umbanda para a rua, fazer uma grande festa
pública. Com muito sacrifício, esta festa foi feita no Senac, na Rua Galvão
Bueno, no bairro da liberdade. Era em homenagem a Oxossi. Foram convidadas 11
Tendas do Rio de Janeiro e algumas de São Paulo. A delegação carioca era
comandada pela pessoa que guiou seus primeiros passos, Benjamim Gonçalves
Figueiredo. Quando, nesse mesmo ano, foi fundado no Distrito Federal o
Primado de Umbanda, sob a presidência de Benjamim Gonçalves Figueiredo, Félix
foi convidado a criar, em São Paulo, uma Delegacia do Primado do Rio. Assim,
reuniu várias tendas em São Paulo, registrando-as no Distrito Federal. O
crescimento da Delegacia, entretanto, fez com que logo depois, em 1960, ele
fundasse o Primado de Umbanda do Estado de São Paulo. Já havia, então 70
tendas filiadas.
Daí para a frente, Félix aprimorou-se dentro da
Umbanda, na preparação de médiuns, em suas próprias palavras: “ Trata-se de
algo muito complicado e profundo, mexer com a cabeça de quem tem “ Santo “ de
modo errado, causa grande dano”. Preparou em sua vida cerca de 400 médiuns, “
confirmados “ e muitos estão com suas tendas abertas, praticando a Umbanda e
transmitindo os ensinamentos aprendidos.
Entre as muitas alegrias que teve no transcorrer
de sua vida, a que marcou profundamente este homem foi relatada por ele a uma
revista chamada Umbanda, da Editora Alves ltda, em 1973: “ já tive várias
alegrias, mas, modéstia à parte, o que mais me alegrou aconteceu em uma festa
de aniversário da Tenda Mirim: participavam dessa festa todas as filiais
dessa tenda, umas 50, todas feitas por Benjamim, e cada qual com sua sede
própria. Eu, na qualidade de dirigente de tenda aqui em São Paulo, chamando-o
de pai como o chamo até hoje, tive a primazia, coisa que me comove até hoje,
quando o Caboclo Mirim, que é o guia chefe daquela organização, passou para
mim o comando da festividade. Essa foi uma das maiores emoções que tive na
Umbanda, porque, francamente,eu não merecia receber tantas honrarias como
recebi diante do chefe. Outras alegrias e emoções vieram através de
manifestações de espíritos em forma de caboclos, preto-velhos , exus, etc ,
que em um ato de magia têm realizado coisas maravilhosas. Eu me sinto
felicíssimo nesses 47 anos de Umbanda.”
Participou em sua via de vários movimentos em
prol da Umbanda:Em 1953, realizou a primeira festa em homenagem a Iemanjá na
Praia Grande, com um grande números de tendas e médiuns.
Em março de 1968, representou o Souesp no Almoço
de confraternização da família Umbandista do Vale do Paraíba.Deu nome ao
bairro Vila Mirim no município da Praia Grande, em homenagem ao Caboclo
Mirim, entidade de seu Pai Benjamim.
Em 12/1976, com “seu” Félix já falecido, ganhou
uma rua com seu nome. Foi o primeiro Umbandista a receber esta homenagem. No
dia 6 de novembro de 1976, o Diário Oficial do Município publicou o Decreto
13.871, assinado pelo prefeito Olavo Egidio Setúbal, cujo artigo 1° diz: No
artigo 2° , diz “ deverá constar na placa: “ Umbandista – 1975 “.
Em 1970, dentro das dependências do Primado de
Umbanda foi criado o Hino da Umbanda, de autoria de J.M.Alves, o qual era
freqüentador da casa, e o Hino foi gravado pela curimba da tenda do Sr.
Félix.
Enfim, participou de vários encontros de
dirigentes, seminários, debates na televisão, fundou órgãos de defesa da
Umbanda, jamais escondeu sua condição de líder Umbandista.
Palavras usadas por Félix Nascentes Pinto,
ouvidas de seu Pai Benjamim: “Umbanda
é coisa séria pra gente séria“ , e ainda, com suas palavras: “
Umbanda prega amor e caridade sem ter covardia. Se formos atacados, nós nos
defendemos através dos Orixás, Caboclos, Pretos Velhos e assim por diante.
Todos os Umbandistas moram no meu coração e merecem o meu respeito; assim,
faço com que eu também more em seus corações. Não considero ninguém mau;
alguns agem erradamente por ignorância ou falta de conhecimento, sem falar
nos aventureiros, que infelizmente estão infestando nosso meio. Eles se
aproveitam do rótulo de Umbanda para fazer uma série de patifarias. Os
católicos se dizem irmãos em Cristo, e nós somos irmãos em Oxalá, que tem
como representação a imagem de Jesus Cristo. O verdadeiro Umbandista deve
tratar a todos e aceitar a todos sem nenhum preconceito de raça, cor ou
posição social.”
Félix viveu uma vida em prol da Umbanda; ao
desencarne, completava 50 anos de estudos e prática de Umbanda e Candomblé (
embora só praticasse a Umbanda ).
Fez sua “ grande viagem “ no dia 20 de setembro
de 1975, deixando uma lacuna jamais preenchida dentro dos corações de quem
com ele conviveu. Seus ensinamentos estão vivos nas mentes em que foram
semeadas.
Numa lição de amor, humildade, caridade e
abnegação (pois nem na doença ele se afastou de seus filhos” ), ensinou a
todos os Umbandistas de verdade o quanto é difícil permanecer fiel ao
sentimento nobre o puro de servir aos irmãos necessitados sem se envaidecer
ou endeusar.
Na verdade, muitos são os que pretendem subir a
íngreme montanha da Umbanda pura, porém são raros os que não desanimam no
meio da escalada, ou não optam por caminhos mais fáceis. “ Muitos são
chamados, Porém Poucos os Escolhidos.”“ Todo aquele que se propuser a
continuar a espinhosa tarefa de orientador ou médium, e não se acercar de
humildade e uma forte dose de autocrítica, jamais conseguirá atingir o lugar
de – “ iluminado .“
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